domingo, 13 de novembro de 2011

Pérfida Noite


Ecoam fantasmas escondidos na calada das noites
Construindo espessos fumos obscenos, arrancando sem pudor
As margens do sexo criado para o prazer insano e descontrolado
De quem não pertencem

Corta-se a felicidade de quem semeia fortes castelos
E sente-se escoar pelas entranhas da desilusão
Em gritos que corroem a alma e devoram a dor
Da decência que rasga o ventre do amor

Estendo as mãos em prece ao desconsolo que se desvanece
Entre as margens do desejo quase pérfido
De querer o retorno cristalino do ser que percorre
Os corredores da podridão por entre um emaranhado de teias...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

HOJE

Imagem provavelmente protegida pelos direitos do autor

Hoje acordei de uma forma diferente
Olhei para dentro de mim e lá estava
Um grande vazio

Um vazio imenso
Recheado de restos de sonhos
Cinzas de pensamentos
Migalhas de sentimentos

Já não consigo chorar
Mais de cinco lágrimas
O mesmo vazio se repete
É uma dor anestesiada

Já não consigo chorar
A mesma dor persiste
É tão sentida tão vivida
Que não consigo senti-la

É o espaço exacto de cinco lágrima
Que foram todas choradas, sentidas, desperdiçadas
São cinco... Apenas Cinco lágrimas

EXALTAÇÃO PROFANA

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A culpa bebe de mãos dadas
Com a exaltação profana de um bolo
Que adoça o ego da palavra envenenada
Estrofe desconexa para ser despenalizada

Abrigo de palavras perdidas sem serem ouvidas
Atiradas levianamente ao vento
Como uma voz que grita sem ser ouvida
Palavra sofrida, despida de preconceito

Grita por uma boca
A voz passiva de tempo não conjugado
Tempo perdido mas encontrado
A culpa uma exaltação profana






MÁGICOS DEFEITOS

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Imperfeitos e mágicos defeitos
que me fazem caminhar em sentido contrário
da história proposta e imposta,
exigidas na hipócrita contradição
da tolerância insensata e irreal.

Invisíveis e mágicos defeitos
que me inundam de prazeres indecentes,
fazendo-me nadar em mares bravios
em busca dos verdadeiros defeitos
transformados em falsas virtudes.

Secretos e mágicos defeitos
porção perigosa da contravenção
de mentiras e verdades em ebulição
pressentidas na cumplicidade
do certo e do errado,
entre virtudes e defeitos
de uma realidade mágica e imperfeita…

MINHA CULPA

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Sei lá! Sei lá! Eu Sei lá’ bem
Quem sou? Um fogo-fatuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenario! Um vaivem

Como a sorte: hoje aqui, depois alem!
Sei la’ quem sou? Sei la’! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei la’ quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estatua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…


Florbela Espanca

terça-feira, 6 de setembro de 2011

EU ADORO VOAR


Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!

Clarice Lispector