segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O Ultimo Dia do Ano



O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papeis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficara repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereces viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muitas coisas já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez vivo,
e de copo na mão
esperas amanhacer.

O recursos de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está estupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

(Carlos Drummond de Andrade)


FELIZ ANO DE 2009

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

TUDO É TEU

Imagem provavelmente protegida por direitos de autor

Descalço venho dos confins da infância,

E a minha infância ainda não morreu...

Em face e atrás de mim ainda há distância.

Ó Menino Jesus da minha infância,

Tudo o que tenho (e nada tenho!) é Teu!


(Pedro Homem de Mello)



sábado, 6 de dezembro de 2008

Perfil de mulher !

Imagem protegida pelos direitos do autor (auto-retrato)


Sou isto que escrevo…
Sem criatividade
Sou o que sou
Meio mentira, meio verdade

Tenho medos e muita coragem
Muito amor e pouca crueldade
Apunhalam-me com sorrisos
Troco o bem pela maldade

Sou isto que escrevo sobre mim
Quase nada
Mas defendo, em quaisquer situações ,
A delícia, a dor, e a aventura de ser mulher…